Coletâneas de textos retirados de grupos do facebook voltados para o desenvolvimento interior.
sábado, 3 de agosto de 2013
viver no presente
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana
Praticantes secretos
domingo, 7 de julho de 2013
sexta-feira, 5 de julho de 2013
busca pela felicidade
O ser humano vive sempre se empenhando na busca da felicidade e muitas vezes nessa busca, o ser humano acaba por morrer. Algumas pessoas pensam: “Se eu resolver este problema, poderei dar um jeito em outro que aparecer”. Porém, logo surgem problemas mais difíceis fazendo com que as pessoas sempre se esforcem na busca de suas resoluções.
Por que o viver do ser humano se torna vazio quando ele não se “encontra” com a felicidade? Onde quer que esteja e do fundo do coração o ser humano pode dizer: “Sou feliz”?
Mas o que é a felicidade? Antigamente tive a experiência de procurar saber e, para isso, perguntei a várias pessoas: “O que falta acontecer para você ser feliz?”. Um grande número de pessoas respondeu: “se tivesse mais dinheiro...”, “se pudesse curar uma doença grave...”, e “quero ficar junto das pessoas que ano e distante das pessoas que odeio”. Se perguntarmos a cem pessoas, ouviremos muitas respostas diferentes.
Seguramente estas são as condições que muitos acreditam “trazer” a felicidade mas, se ficarem “amarrados” a elas, com certeza ocorrerá o contrário do que pensam, ficando ansiosos e infelizes.
Quanto mais riqueza o ser humano procura, por causa do apego a essa riqueza ele sofrerá. Quanto mais busca a saúde, o temor da doença se torna mais forte. Quanto mais busca o amor, mais se angustia com o ódio. Antigamente, as condições para um casamento feliz eram: ter uma casa, ter um carro e morar longe da sogra. Há mulheres que conseguiram se casar nestas condições mas ouvi dizer que atualmente uma senhora mora com a sogra, apesar das dificuldades de relacionamento e o marido teve de vender o carro e a casa para pagar os prejuízos de um acidente de trânsito.
O ensinamento budista nos ensina que nós, seres humanos, ficamos “perdidos” ao procurarmos externamente as infinitas condições favoráveis para sermos felizes e nessa busca acabamos por não encontrarmos nosso verdadeiro eu.
Os pensamentos iludidos dos seres humanos são: se houver uma condição favorável e conveniente serei feliz (paraíso), mas se houver uma condição desfavorável serei infeliz (inferno) e, ao pensar assim, as pessoas sofrem constantemente. Na verdade todos buscam por conveniências a si mesmos.
O desejo do Buda é que nós possamos perceber que este apego egoísta é a causa do nosso sofrimento e que possamos superar estas comparações de felicidade e infelicidade, paraíso e inferno, etc, etc, etc. Aqui, agora, podemos despertar para o nosso verdadeiro eu sendo vivificados pela sabedoria dos ensinamentos. Devemos prosseguir estudando, ouvindo e praticando os ensinamentos de Buda para que possamos viver nossas vidas com Sabedoria.
Todos os homens, sem exceção, desejam ter uma vida feliz e se esforçam para conquistá-la. Alcançar a liberdade e a igualdade significa, em última análise, viver uma vida feliz. Muitas guerras foram travadas com esse propósito. Até parece que toda a história humana é a história da luta pela conquista da felicidade. Todos os nossos projetos dirigem-se para esse objetivo, todas as nossas energias são despendidas para alcançá-lo. Parece que a felicidade é o objetivo último da vida. Vamos examinar o que é essa felicidade que todos nós buscamos, e o caminho que procuramos para conquistá-la.
O que é a felicidade? Precisamos conhecer com clareza o objetivo da nossa busca. Se não o conhecemos, nossos esforços talvez sejam em vão. Os antigos gregos pensavam que a felicidade era o bem. Mas, na Idade Média e na Idade Moderna, o significado formal de Aristóteles – o bem é a felicidade – foi alterado para o significado mais materialista de que a felicidade é o prazer ou a ausência de dor. John Stuart Mill, em sua obra O Utilitarismo, afirma: “Por felicidade, entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, a dor e a ausência de prazer”. Stuart Mill estabelece diferenças qualitativas para o prazer. John Dewey faz distinção entre felicidade e prazer, afirmando que a felicidade é permanente e universal, um sentimento do ser como um todo, enquanto que o prazer seria transitório e relativo, um sentimento de alguns aspectos do ser. Aristóteles afirma que o bem do homem – a felicidade – é uma atividade da alma de acordo com a virtude; ou, se houver mais de uma virtude, então a felicidade estará de acordo com a melhor e mais perfeita virtude. Já Spinoza afirma que a felicidade não é o prêmio da virtude, mas sim a própria virtude.
Em sânscrito, a felicidade é chamada de sukha. A sukha inclui tanto o estado relativamente estático a que damos o nome de felicidade quanto a momentos conscientes desse estado, ao qual nossa psicologia se refere como um sentimento prazeroso ou agradável. A sukha aplica-se igualmente à saúde física, ao bem-estar material e à beatitude espiritual.
O budismo divide em três o sentimento: sukha, felicidade; dukha, dor; e adukhamasukha, sentimento neutro.
O sentimento neutro é idêntico à felicidade – ou seja, à felicidade do tipo mais sutil. Aos prazeres e à felicidade que têm origem nos cinco sentidos, chamamos de felicidade dos desejos mundanos. A espécie mais sutil de alegria surge em conexão com a prática do dhyana (meditação). No último estágio do dhyana, todos os sentimentos positivos, alegria ou melancolia, fundem-se no sentimento neutro ou indiferença; a perfeita clareza da mente é alcançada e a ignorância é banida, de modo que a consciência fica em estado de completa equanimidade e clareza mental. Sidgwick afirma que a felicidade budista é um hedonismo universal, porque ela não é egoísta nem altruísta. A missão de Buda não era apenas superar a dificuldade, mas também alcançar o bem e a felicidade de todos os seres: trazer felicidade para si mesmo e para os outros. No budismo, o esforço em direção a um objetivo é felicidade – em contraposição aos ascetas hindus que tudo sacrificam por um objetivo.
Vamos agora trazer este tema para o nosso dia-a-dia. Alcançamos a felicidade de muitas maneiras na nossa vida diária. No entanto, podemos dividi-la em três categorias: a felicidade física, a material e a espiritual. Por física, quero dizer que a pessoa é feliz porque é saudável, simpática ou bonita. Em termos materiais, ela é feliz porque é rica, mora numa boa casa, tem um belo carro, muitas roupas, jóias e uma despensa bem abastecida. A felicidade mental ou espiritual está na amizade e no amor. A felicidade é criada quando a pessoa recebe honras, louvores, simpatia, conforto, etc.
Estas condições de felicidade dependem de causas externas. A felicidade é alcançada pela posse de alguma coisa ou pelo recebimento de alguma coisa. Portanto, quando a causa da felicidade deixa de existir ou é destruída, a felicidade também desaparece. Ela está além do nosso controle. Vejamos alguns exemplos. A sua felicidade física: você é jovem e bonito, é simpático, tem boa saúde e é forte.
Com efeito, você é feliz e grato por isso. Mas, vamos supor que você sofre um acidente e fica aleijado, ou doente; a sua felicidade não pode mais depender da sua saúde. E á claro que, com o passar dos anos, sua beleza e vigor irão se desvanecer. Portanto, não se pode depender da saúde, da beleza e do vigor para a felicidade verdadeira e eterna, embora estes sejam fatores importantes da nossa felicidade. Devemos alcançar uma outra felicidade que não a física, a fim de podermos desfrutar a vida e ser felizes e gratos, mesmo que estejamos doentes, velhos ou aleijados.
Kenkô, famoso monge budista e autor de Tsurezuregusa, disse certa vez: “não vale a pena termos um amigo que nunca experimentou a doença”. Uma pessoa saudável, que nunca esteve doente, não compreende o verdadeiro sentido da compaixão e da bondade. Uma pessoa assim tão saudável tende a tornar-se obstinada e a criar atrito e discórdia. Num caso desses, a saúde não é uma fonte de felicidade, mas sim de problemas. Também é evidente que a felicidade material é incerta e duvidosa. Nesta nossa época regida pelo culto à riqueza, o dinheiro é tudo. As pessoas acreditam que o “onipotente cifrão” pode comprar tudo e todos. Na verdade, o dinheiro é muito importante neste nosso mundo tão consciente dos valores monetários.
Mas a felicidade que é comprada com dinheiro irá se dissolver quando o dinheiro acabar. O dinheiro trás felicidade, sim, mas ao mesmo tempo traz miséria. Logo, o dinheiro mão é o caminho para a felicidade. Um belo carro, uma boa casa, boa comida, roupas finas e outros pertences estão na mesma categoria. Estas coisas são importantes e trazem felicidade, mas são duvidosas e incertas; e muitas vezes, trazem o sofrimento através da destruição do roubo ou da inveja. Tampouco podemos depender da felicidade trazida pelo amor, pela amizade, pela simpatia e pela bondade dos amigos, pois o amor freqüentemente se transforma em ódio e os amigos em inimigos, já que todas essas coisas são relativas. A felicidade trazida por meios físicos, materiais e mentais é alcançada através de causas externas. E é exatamente por isso que não se pode depender dela. Devemos, portanto, procurar as causas internas da felicidade, não suas causas externas.
O budismo nos ensina a olhar o âmago das coisas, em vez de olhar à volta delas. Devemos olhar para o interior de nós mesmos, a fim de vermos o que cria a felicidade. Por exemplo, ser amado é felicidade, mas amar também é felicidade. É fonte de felicidade receber-se alguma coisa; mas também dar e compartilhar é felicidade. A felicidade do doador é mais rica e permanente que a do receptor. No espírito do verdadeiro dar, compartilhar e amar, não há limites. A felicidade é o próprio amar e compartilhar, não necessariamente seu resultado. A verdadeira satisfação do trabalho é o próprio ato de trabalhar, não o resultado do trabalho. A verdadeira felicidade não é aquela que recebemos de fora, mas sim aquela que é criada dentro de nós. O homem moderno em geral é um “buscador de resultados”.
Sua atitude é a de fazer alguma coisa se esta lhe trouxer algum benefício; pois, se não obtiver lucro, de que adianta fazer alguma coisa? Os buscadores de resultados são os buscadores de lucro. Em outras palavras, o homem moderno pensa que o fim é mais importante que os meios. Alguém disse que duas ideologias modernas estão representadas por Stálin e Gandhi: o caminho de Gandhi é que os meios são tão importantes quanto o fim, enquanto, para Stálin, o fim é tão importante que justifica os meios. Os budistas aprendem que todos os passos e todos os meios são muito importantes. Cada meio é, em si, um fim. Para o artista, o músico e o escultor, o trabalho em si é prazer e felicidade; mas, para aquele que só pensa em dinheiro, o trabalho nada mais é que um meio de ganhar dinheiro. Trabalho significa dor e sofrimento; o sofrimento precisa ser compensado gastando dinheiro: esta é a vida moderna. Sinto muita pena das pessoas que vivem esse tipo de vida. A pessoa mais feliz e afortunada é aquela que gosta de seu trabalho, além de ganhar dinheiro com ele.
O verdadeiro caminho para a felicidade é a percepção da nossa própria vida. É o desabrochar do ser como um todo. O verdadeiro caminho para a felicidade está no dar, não na felicidade do receber. Precisamos encontrar o caminho do amar, não o de sermos amados.
A vida do eterno dar, amar, compartilhar e apreciar o trabalho é sempre criativa e infinita, enquanto os outros caminhos para a felicidade levam a fracassos e desapontamentos. A verdadeira felicidade não nos é dada – nós a criamos. Se você é infeliz, não culpe os outros ou o meio ambiente. É a sua mente, a sua atitude, que o fazem sentir-se miserável. Pode ser útil mudar de casa ou de emprego, mas essa não é a cura completa para o seu problema e a sua infelicidade. A atitude correta e uma mente clara e correta são o caminho para a felicidade.
''Budismo Essencial''
quinta-feira, 4 de julho de 2013
A raiva
Alguns dizem que a natureza básica do ser humano é agressiva, outros dizem que é gentil. Ambos têm certo grau de razão, mas entendo que a natureza básica do ser humano é gentil, porque todo mundo quer alegria, não sofrimento.A importância do amor e da tranqüilidade — Quando no ventre da mãe, antes de nascer, o estado tranqüilo da mãe é vital para a saúde da criança. Depois de algumas semanas de nascimento, o toque físico na criança é vital para o desenvolvimento adequado da mente.Portanto, durante esse período — e aqui não se está falando de religião e fé — a gentileza e a bondade são vitais para a criança.Depois, quando se trata de educar uma criança, aquelas que têm uma atmosfera gentil, de apoio, aprendem e se desenvolvem mais; as que não recebem afeto humano se desenvolvem menos. Isso mostra claramente a necessidade do amor, e de uma atmosfera afetiva.A compaixão, o cuidado gentil, são qualidades predominantes em seres humanos. Também vemos seres humanos se expressando de modo violento, mas isso se deve ao mau uso da inteligência e ao desejo — que terminam por gerar estados mentais nada agradáveis. E esses não são aspectos mentais de nossa natureza básica.Usualmente vemos no jornal, rádio, televisão atrocidades, atos negativos, e a partir disso concluímos que a natureza humana é negativa. E nos perguntamos por que essas coisas negativas se tornam usuais. Essa nossa reação mostra que atividades como a compaixão e o cuidado são naturais. Por isso os tomamos por habituais. O crime, o assassinato, as ações violentas são um pouco fora da natureza humana, e por isso são notícia. Na sociedade humana, as atividades de ajuda e compaixão são predominantes — e por o serem, não são notícia.Se analisamos de perto as atividades humanas, veremos que a parte dominante das atividades humanas são as compassivas e generosas, não as agressivas. Nesta manhã vimos que a raiva e ódio são coisas que fazem mal a nossa saúde. O nosso corpo sente-se bem com emoções positivas, e sofre com as negativas.Como chegar à não violência — Para enfrentar a raiva, o ódio, o ciúme e as demais emoções negativas, temos que analisar o que são e de que forma agir em relação a eles. Hoje em dia é muito comum se falar sobre paz e não violência como uma coisa positiva.
Mas qual é a linha que separa a violência da não violência? A verdadeira linha que as separa é a motivação e a resolução.Para que se possa promover a não violência, temos que cultivar a compaixão, o senso de cuidado com os outros. Temos que controlar nossas emoções negativas. E se nós tentarmos suprimir essas emoções à força, não conseguiremos.O controle está ligado a conhecer, analisar essas emoções e, com base nessa análise, escolher um caminho diferente. Se você tem o objetivo de ser uma pessoa com potencial de ajudar os outros, será necessário ter uma atitude perante um dos fatores que mais bloqueiam nossa ação positiva nesse sentido: a raiva e o ódio. Terá que ter uma atitude capaz de lidar com esses sentimentos. E o antídoto mais eficaz contra eles é a paciência.Os malefícios da raiva — Que benefício a raiva pode trazer? Às vezes pensamos que ela vem em nosso socorro: em uma situação trágica, a raiva parece nos dar mais coragem e energia. Sob essa perspectiva, seria algo que nos ajudaria a superar uma situação difícil.Mas a energia que vem da raiva é cega, não tem nenhuma sabedoria, e traz o potencial de fazer com que você se auto-destrua. A raiva bloqueia nossa capacidade de discernimento, e cega nossa inteligência.Por exemplo: às vezes perdemos a cabeça e dizemos palavras absurdas, depois nos sentimos envergonhados, temos vergonha do que dissemos, de nossas palavras impensadas. No momento em que a raiva tomou conta, perdemos a capacidade de pensar e de discernir.A raiva também não faz bem a nossa saúde. Algumas vezes, quando queremos atingir um inimigo, deixamos a raiva nos guiar. Não é certo que conseguiremos atingir o inimigo, mas uma coisa é certa: prejudicaremos a nós mesmos.Se temos um inimigo que resolve nos perturbar, quando reagimos estamos deixando que a situação continue a se desenvolver. E, mesmo depois que terminou, continuamos a sentir raiva — deixando que a situação nos perturbe mesmo depois de terminada. Se, no entanto, temos paciência, a situação irá acabar por si mesma.A raiva causa dor de estômago, mal estar, em nós. E o inimigo pode até se regozijar com isso.Temos que tomar atitudes de uma maneira pensada, sem perder a paz de espírito.
Aqueles que tem alguma prática de compaixão e tolerância conseguem fazê-lo muito bem. Vários monges tibetanos que estiveram em prisões chinesas, alguns por muito tempo. Os que conseguiram atravessar essa situação de forma menos traumática foram os que mais cultivavam uma atitude compassiva.Todos eles passaram por tortura física, mas os mais compassivos sofreram muito menos com a tortura. Um monge que ficou 18 anos em uma prisão, em uma ocasião em que conversávamos, me falava sobre a vida na prisão. Ele me disse que em algumas ocasiões esteve em grande perigo. E eu perguntei: "que tipo de perigo"? Ele me respondeu: "perigo de perder a compaixão pelos chineses". Isso mostra o quanto a paciência e a tolerância são importantes. Elas não são fraquezas, e sim um sinal de fortaleza interior.Se você pratica a compaixão, eventualmente você pode até desenvolver algum grau de gratidão pelo seu inimigo, porque só através da prática da tolerância e paciência se manifesta a compaixão.E para praticar a paciência e a tolerância você tem que enfrentar situações difíceis. Como praticar tolerância diante de um Buda? Para aprender tolerância e paciência temos que exerce-las. Portanto, o inimigo é o seu mestre, e o ajuda a desenvolver essas qualidades.Algumas vezes temos a noção de que a prática da paciência e tolerância significa nos curvarmos diante dos outros, mas não é isso. Estou falando de não deixarmos a raiva nos dominar, não de submissão.Como lidar com a raiva — Como lidar com a raiva? Há diferentes tipos e níveis de raiva. Algumas são mais razoáveis, como a raiva motivada pela compaixão — ela pode nos levar a ficar irados com uma pessoa, e há razão para isso. Há no entanto outros tipos de raiva que não têm uma base na realidade. Surgem na mente como uma projeção de um estado mental negativo.Há também diferentes graus de intensidade. Algumas raivas são mais intensas, outras menos. Dependendo do grau e do tipo, se adotam medidas diferentes.
Quando a raiva é mais branda, ao percebermos que está para vir, devemos lembrar o caráter perturbador dela, e então seremos capazes de controlá-la. No caso de uma raiva muito violenta, é muito difícil pensar em medidas preventivas como no caso de uma raiva mais branda. Então o melhor é neutraliza-la pensando em outros assuntos, para ao menos não deixa-la tomar conta. E, à medida que nos tornamos mais habilidosos, podemos adotar diferentes tipos de contra-ação.Um outro tipo de prática é destinado à raiva que nos é causada por desastres naturais, tragédias. Então temos que olhar o problema de diferentes ângulos.No meu caso, em que perdi meu país, vejo que isso trouxe uma oportunidade de encontrar muita gente e repartir experiências. Qualquer evento tem dois aspectos. Algo que parece muito ruim quando se está com raiva, pode ter aspectos benéficos.Outro método é tentar olhar os eventos à distância. Vistos dessa nova perspectiva, os problemas ficam menores. Se olhamos muito de perto, parecem incontroláveis. Devo pensar "esse não é somente o meu caso, mas há muitos outros". Isso coloca as coisas em perspectiva.Quando se tenta perceber as coisas de uma perspectiva mais ampla, se vê de forma diferente. Então, se abre um novo espaço para um novo sentimento, uma nova atitude. Isso revela a importância do estado mental.Para se desenvolver a compaixão inamovível e sem preconceitos, é fundamental ter uma atitude correta frente aos inimigos. Assim, os budistas adotam a seguinte estratégia para desenvolver a compaixão sem preconceitos: Recuam.Recue você também. Recue da proximidade dos sentimentos, da proximidade dos amigos e da distância dos inimigos. Adote a equanimidade. O apego aos amigos e o desagrado dos inimigos são um entrave.Quando se olha com equanimidade, vemos que todos os seres querem a felicidade, querem se livrar do sofrimento. E quando percebemos isso, podemos chegar à compaixão
DALAI LAMA
terça-feira, 2 de julho de 2013
Sobre o apego e a raiva
– “O Trabalho com a Raiva e a Aversão”
O APEGO E A RAIVA são dois lados da mesma moeda. Por causa da ignorância e da divisão da mente na dualidade sujeito-objeto, nos agarramos a coisas que percebemos como externas a nós, ou então tentamos nos afastar delas. Quando encontramos algo que desejamos e que não podemos conseguir; ou quando alguém nos impede de alcançar aquilo que dissemos a nós mesmos que precisávamos ter; ou quando acontece algo que não se ajusta à maneira como gostaríamos que as coisas fossem, sentimos raiva, aversão ou ódio. Essas respostas, porém, não trazem benefício algum; elas apenas prejudicam. Com a raiva, e também com o apego e a ignorância – os três venenos da mente – geramos carma sem fim, sofrimento sem fim.
Diz-se que não há mal que se compare à raiva: por sua própria natureza, a raiva é destrutiva, um inimigo. Dado que nem uma gota de felicidade jamais nasce dela, a raiva é uma das potentes forças negativas.
A raiva e a aversão podem levar à agressão. Quando prejudicadas, muitas pessoas sentem que devem retaliar, cobrando olho por olho. É uma resposta natural. “Se alguém me xinga, dou o troco e xingo também. Se alguém me dá um soco, leva outro de volta. É o que a pessoa merece”. Ou, ainda pior: “Esse indivíduo é meu inimigo. Se eu o matar, vou ficar feliz!”
Não damos conta que, se temos tendência à aversão e à agressão, os inimigos começam a aparecer por todos os lados. Encontramos cada vez menos coisas para gostar nos outros e cada vez mais coisas para odiar. As pessoas começam a nos evitar e ficamos mais isolados e solitários. Às vezes, enfurecidos, cuspimos palavras ásperas e ofensivas. Os tibetanos têm um ditado: “As palavras podem não carregar armas, mas ferem o coração”. Nossas palavras pode ser extremamente danosas, tanto pelo mal que causam aos outros quanto pela raiva que despertam. Com freqüência, estabelece-se um ciclo: uma pessoa sente aversão por outra e diz alguma coisa que a fere; a outra pessoa reage, dizendo algo fora do esquadro. As duas começam a pôr lenha na fogueira uma da outra, até que estejam travando uma batalha de palavras iradas. Sem dúvida, isso pode ser transposto para o nível nacional e internacional, onde grupos de pessoas se envolvem em agressão contra outros grupos e nações são jogadas contra nações.
Quando você deixa a aversão e a raiva tomarem conta de você, é como se, tendo decidido matar uma pessoa jogando-a em um rio, você se agarrasse ao pescoço dela, pulasse na água e os dois morressem afogados. Ao destruir seu inimigo, você também se destrói.
É muito melhor dissipar a raiva antes que ela possa conduzir a um conflito maior, respondendo a ela com a paciência. Compreender a responsabilidade que temos por aquilo que nos acontece ajuda a fazer isso. Tratamos nossa ligação com alguém que percebemos como um inimigo como se saída do nada. Mas, em alguma existência passada, talvez tenhamos usado palavras duras com aquela pessoa, maltratando-a fisicamente ou abrigando pensamentos raivosos em relação a ela. Em vez de procurarmos os defeitos dos outros, dirigindo nossa raiva e aversão contra situações que pensamos estar no ameaçando, deveríamos lidar com o verdadeiro inimigo. Esse inimigo, que destrói nossa felicidade a curto prazo e nos impede, em uma perspectiva mais longa, de alcançar a iluminação é a nossa própria raiva e aversão. Se a vencermos, não haverá mais brigas, pois deixaremos de perceber como inimigos os nossos oponentes – um grande retorno por pouco esforço. Tanto nós quanto eles teremos cada vez menos probabilidades de reincidir em situações que possam levar a um conflito. Todos saem ganhando.
Nossa tendência habitual é fazer contemplação, mas de maneira contraproducente. Se alguém nos insulta, geralmente ficamos remoendo o assunto, perguntamo-nos, “Por que ele me disse isso?”, vez após vez. É como se tivesse atirado uma flecha contra nós, mas o tiro saísse curto. Concentramo-nos no problema é como apanharmos a flecha e cravá-la em nosso peito repetidas vezes dizendo, “Ele me magoou tanto. Não consigo acreditar que fez isso”.
Um outra opção é usar o método da contemplação para refletir sobre as coisas de modo diferente, para modificar nosso hábito de reagir com raiva.
De início, como é difícil pensar com clareza em meio a uma discussão, começamos a praticar em casa, sozinhos, imaginando confrontos e novas formas de responder a eles. Imagine, por exemplo, que uma pessoa o insulte. Ela está enojada de você, dá-lhe um tapa ou ofende você de algum modo. Você pensa, “O que devo fazer? Vou me defender – vou retaliar. Vou expulsar essa pessoa da minha casa”. Agora, experimente outra atitude. Diga a si mesmo, “Essa pessoa me deixa com raiva. Mas o que é raiva? É um dos venenos da mente que gera carma negativo e leva sofrimento intenso. Contrapor raiva à raiva é como ir atrás de um louco que pula de um precipício. Será que tenho que fazer o mesmo? Se é insano da parte dele agir como age, é ainda mais insano da minha parte agir do mesmo modo”.
Lembre-se de que aquelas pessoas que agem de forma agressiva com relação a você estão apenas comprando o próprio sofrimento, criando, por ignorância, condições mais difíceis para si mesmas. Pensam estar fazendo o que é melhor para si, estar corrigindo algo errado ou impedindo que o pior aconteça. Mas a verdade é que esse comportamento não traz benefício algum. Em muitos aspectos, é como alguém que está com dor de cabeça e bate na própria cabeça com um martelo para tentar parar a dor. Em sua infelicidade, põe a culpa nos outros, os quais, por sua vez, ficam com raiva e brigam, apenas piorando a situação. Quando consideramos a condição difícil em que se encontram, damo-nos conta de que essas pessoas deveriam ser objeto de nossa compaixão, e não de raiva ou crítica. Então aspiramos fazer tudo o que está ao nosso alcance para protegê-las de mais sofrimento, como faríamos com uma criança que sempre se mete em travessuras, fugindo o tempo todo para a rua e que nos bate e arranha quando tentamos trazê-la de volta. Em vez de desistirmos daqueles que agem mal, precisamos compreender que estão procurando a felicidade, mas não sabem como encontrá-la. O papel de inimigo não é permanente. A pessoa que o fere hoje pode se ternar seu melhor amigo amanhã. O seu inimigo de hoje pode mesmo ter sido, em uma vida passada, a pessoa que lhe deu à luz, a mãe que alimentou e cuidou de você. Ao contemplarmos esses aspectos desse modo e repetidamente, aprendemos a reagir à agressão com compaixão e a responder à raiva com bondade.
Um outro método que podemos empregar é ganhar consciência da qualidade ilusória da nossa raiva e do objeto da nossa raiva. Se, por exemplo, alguém lhe diz, “Você é um indivíduo mau”, pergunte-se, “Será que isso me faz ser mau? Se eu fosse um indivíduo mau e alguém dissesse que eu era bom, isso faria de mim um indivíduo bom?” Se alguém diz que carvão é ouro, ele passa a ser ouro? As coisas não se transformam apenas porque alguém diz isto ou aquilo. Por que levar essas palavras tão a sério?
Sente-se em frente de um espelho, olhe para sua imagem e insulte-a: “Você é feio. Você é mau.” Em seguida, elogie-a: “Você é bonito.Você é bom.” Independentemente do que você diga, a imagem permanece simplesmente o que ela é. Elogios e críticas não detém poder algum de nos ajudar ou prejudicar.
À medida que praticamos desse modo, começamos a compreender que as coisas são desprovidas de solidez, como um sonho ou uma ilusão. Criamos um estado mental mais espaçoso – um estado que não é tão reativo. Então, quando a raiva aparece, em vez de responde imediatamente, podemos olha para ela e perguntar: “O que é isso?O que está me fazendo ficar vermelho e tremer? Onde está?” O que descobrimos é que a raiva não tem substância, que não é uma coisa que possa ser encontrada.
Assim que nos damos conta de que não conseguimos encontrar a raiva, podemos deixar a mente em repouso. Não reprimimos a raiva. Apenas deixamos a mente repousar em meio a ela. Podemos ficar com a própria energia – simples e naturalmente, permanecendo cientes dela, sem apego e aversão. Então constatamos que a raiva, assim como o desejo, na realidade não é o que pensávamos ser. Começamos a ver sua natureza e a compreender a sua essência, que é a sabedoria semelhante ao espelho.
Fazer isso pode soar fácil, mas não é. A raiva nos estimula e nós voamos – de um jeito ou de outro. Voamos em nossa mente, voamos para um julgamento, voamos para uma reação, voamos para isto ou aquilo, nos envolvendo com o que nos contrariou. Nosso hábito de revidar dessa forma vem sendo reforçado vez após vez, vida após vida. Se nossa compreensão da essência da raiva for apenas superficial, vamos verificar que não seremos capazes de aplicá-la a situações da vida real.
Há um famoso conto folclórico tibetano sobre um homem que estava meditando em retiro. Alguém veio vê-lo e perguntou, “Em que você está meditando?”
“Na paciência”, disse ele.
“Você é um idiota!”
Isso deixou o meditador furioso e ele imediatamente começou uma discussão – o que mostrou exatamente quanta paciência ele tinha.
Somente pela aplicação sistemática e contínua desses métodos, dia após dia, mês após mês, ano após ano, é que conseguiremos dissolver nossos hábitos arraigados. O processo pode levar algum tempo, mas nós, sem dúvida, iremos mudar. Veja com que rapidez mudamos em termos negativos. Estamos felizes e, então, alguém diz ou faz algo, e logo ficamos irritados. Mudar de modo positivo requer disciplina, esforço e paciência. A palavra “meditação” em tibetano (gom), vem da mesma raiz do verbo “familiarizar-se” ou “aclimatar-se”. Utilizando vários métodos, nós nos familiarizamos com outros modos de ser.
Há uma expressão: “Até um elefante pode ser domado de diferentes maneiras.” Quando ferrões e ganchos são empregados com habilidade, esse animal enorme e potente pode ser conduzido com bastante delicadeza. Diz-se que quando os elefantes são enfeitados para ocasiões festivas, tornam-se dóceis, caminhando como se pisassem sobre ovos. Ou, se estão no meio de um multidão, os elefantes deixam-se facilmente controlar. Portanto, uma coisa que é grande e pesada pode, com os meios adequados, vir a ser manipulada satisfatoriamente. Do mesmo modo, a mente, muitas vezes insubmissa e tempestuosa, pode ser pacificada com meios hábeis.
A diferença entre como uma pessoa mundana encara a vida e como um praticante espiritual o faz, está em que aquela sempre olha para os fenômenos como se olhasse através de uma janela, julgando a experiência externa; ao passo que este usa a experiência como um espelho para, repetidamente, examinar sua própria mente em minucioso detalhe – para determinar onde se encontram os pontos fortes e os fracos, como cultivar os primeiros e eliminar o últimos.
Não precisamos de uma vidente para nos dizer qual vai ser a nossa experiência no futuro – precisamos apenas olhar para a nossa própria mente. Se temos um bom coração e a intenção de ajudar os outros, estaremos encontrando felicidade continuamente. Se, ao contrário, a mente estiver preenchida por pensamentos autocentrados e mundanos, ou com raiva e intenções maldosas em relação aos outros, estaremos encontrando apenas experiências difíceis.
Se examinarmos a nossa mente, vez após vez, continuamente aplicando antídotos para os venenos que surgem, iremos lentamente ver mudanças. Apenas nós mesmos podemos realmente saber o que está acontecendo em nossa mente. É fácil mentir para os outros. Podemos fingir que um saco de couro grosso está cheio, mas assim que alguém se sente sobre ele saberá se está cheio de fato.
De igual modo, podemos nos sentar por horas na postura de meditação, mas, se pensamentos vindos dos venenos circulam pela mente o tempo todo, estaremos apenas fingindo fazer prática espiritual. Em lugar disso, podemos ser honestos conosco mesmos, assumindo a responsabilidade pelo que vemos em nossa mente, em vez de julgar os outros, e aplicando o corretivo apropriado para mudar.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Oito Versos que Transformam a Mente
1. Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres
sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que
realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais
alto grau.
2. Sempre que estiver na companhia de outras
pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais
insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.
3. Em todos os meus atos, vou aprender a
examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes
negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro
precioso,
Muito difícil de achar.
5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a
minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.
6. Quando alguém a quem ajudei com grande
esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem
motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.
7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos,
sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e
indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que
foram minhas mães.
8. Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações
mundanas*,
E, ao compreender todos os fenômenos como
ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.
*As oito preocupações mundanas são:
Gostar de ser elogiado / Não gostar de ser
criticado
Gostar de ser feliz / Não gostar de ser infeliz
Gostar de ganhar / Não gostar de perder
Desejar ser famoso / Não gostar de ser
ignorado
Link com texto comentado por S.S. o Dalai Lama:
Oito Versos que Transformam a Mente
quarta-feira, 5 de junho de 2013
sobre raiva
Na vida cotidiana não nos damos conta que convivemos com o pior dos ladrões.
Um ladrão comum pode roubar seu relógio, talvez não lhe roube todos os seus pertences; Se roubar todos seus pertences, talvez não roube sua vida;Se matar seu corpo, não poderá matar sua mente e suas vidas futuras; Um ladrão comum também não pode roubar nosso bom carma.
Entretanto, existe um ladrão que pode tudo, inclusive levar nossos bons méritos e oportunidades. Este ladrão é a raiva.
Buda Shakyamuni costumava comparar a raiva a um perigoso ladrão, a um incêndio devorador que destrói florestas de bons méritos e a um perigoso demônio. O abençoado disse que a raiva não deve ser cultivada pelos praticantes leigos, muito menos por monges, pois:
• A raiva é como um detestável ladrão por que rouba oportunidades. Com raiva a mente fica turva, as idéias confusas e as decisões desacertadas. Ninguém confia em pessoas que tentam resolver seus problemas com acessos de fúria. Quem assim procede cria má fama e perde excelentes oportunidades de realização, pois é prejudicado pela má reputação. Agir com raiva é plantar as raízes do descrédito, do erro e do arrependimento.
• A raiva é como um incêndio devorador, destruidor das florestas de bons méritos. Num acesso de fúria dizemos palavras ofensivas e agimos agressivamente, provocando desavenças ou tragédias. Com isso, podemos perder o emprego, destruir laços familiares, perder o convívio com bons amigos e a confiança dos demais. Algumas das pessoas atingidas pela nossa reação furiosa também queimarão de raiva e silenciosamente planejarão desforras ou vinganças e se não puderem nos atingir, poderão visar pessoas com as quais temos relação de afetividade.
• É como um perigoso demônio, por que num acesso de fúria, somos tomados por um momentâneo estado de demência e agimos como demônios enfurecidos. Seres humanos revoltados e furiosos, se não modificarem estas disposições, acabarão como habitantes do inferno. Quem cultiva a raiva, protege e sustenta seu pior inimigo!
Por que surge a raiva?
A raiva é a reação primitiva de descontentamento. Existem níveis de raiva. Vai das simples mágoas, ao ódio devastador. O fato de cultivarmos meros ressentimentos não significa estarmos imunes a raiva e suas nefastas conseqüências. Uma diminuta e insignificante brasa pode desatar um incêndio incontrolável.
“Uma cozinheira queria preparar um prato picante, mas receava não agradar a todos. Perguntou aos convidados se aceitariam uma refeição apimentada. Ouviu então diferentes respostas:- Eu adoro pimenta! - Eu detesto pimenta!
- Ah, para mim tanto faz!“
A cozinheira percebeu que para as pessoas, embora a pimenta fosse a mesma para todos, ela provocava diferentes reações nas pessoas. Os fatos da vida também são os mesmos para os seres, estamos sujeitos a desilusões, doença, velhice e morte, isso é natural, mas a reação a estes fatos inevitáveis difere de pessoa para pessoa. Os fatos são o que são, a raiva é opcional. Quando nos propomos a abandonar as causas do sofrimento, estamos declarando a raiva como o principal inimigo.
Quando a mente vê o mundo e as pessoas como posses haverá ai um grande problema. Quando as coisas não são do nosso jeito sentimos certa raiva, uma simples tristeza ou grande revolta, tudo isso são formas ou níveis de raiva.
Entenda que raiva é revolta. Outro dia alguém me disse que tristeza nada tinha haver com raiva. Isto é enganoso. Digamos que a tristeza é uma implosão venenosa, a ira é uma explosão de raiva, que embora seja dirigida aos outros, fere, acima de tudo, a nós mesmos.
Vida é movimento, perdas e ganhos são contingências inevitáveis. Se não podemos controlar o universo de que adianta cultivar raiva?
A raiva não faz o sol brilhar, mas faz o coração parar de bater;
Não cessa o frio, mas congela o coração;
Pessoas sábias e prudentes perdem a confiança em que tem é tomado de constantes acessos de fúria...
Mudanças são contingências da vida, para viver com saúde e longevidade é preciso cultivar o contentamento.
Buda recomenda não repousarmos enquanto a serpente venenosa dormita em nossos aposentos, para ele, a raiva é como uma serpente venenosa “aninhada” na mente não-iluminada. Flagrá-la saindo da toca é como ter a rara oportunidade de “pegar o bicho pelo rabo” . Superando a raiva e a ignorância, evitaremos que elas arruínem nossas vidas.
A IGNORÂNCIA DA RAIVA
Imagine-se andando com os braços carregados de compras do supermercado. Então, alguém grosseiramente colide, fazendo você e as compras caírem no chão. Assim que você se levanta da poça de ovos quebrados e massa de tomate, está pronto para gritar: “Imbecil! O que há de errado com você? Está cego?”.
Mas antes mesmo que possa tomar fôlego para falar, você vê que a pessoa realmente é cega. Ele, também, está esparramado na poça. Sua raiva some em um instante, para ser substituída por preocupação bondosa: “Você está machucado? Deixe eu te ajudar”.
Nossa situação é como essa. Quando claramente compreendemos que a fonte da desarmonia e dor no mundo é a ignorância, podemos abrir a porta da sabedoria e compaixão. Então, ficamos em uma posição adequada para curar a si mesmo e aos outros.
B. Alan Wallace, em “Tibetan Buddhism from the Ground Up”
Tricycle’s Daily Dharma, 30 de março de 2007.
[...] A raiva, definida como uma inundação da mente por sentimentos violentos e agressivos, que naturalmente leva à hostilidade e conflito, é SEMPRE condenável.
Mesmo a chamada raiva justa, tão frequentemente defendida quando tem a injustiça e o abuso como alvo, é totalmente condenável se isso envolve a perda do controle em uma onda de paixão incontrolável e destrutiva.
Com exceção de uma indignação puramente externa e artificial, com propósito educacional — que tem a compaixão como motivação e é representada por alguém com a mente sob controle — a raiva não tem absolutamente nenhum lugar no esquema do desenvolvimento espiritual.
Ela é totalmente maléfica ao treinamento da mente e irá arruinar e aniquilar em um instante todo progresso e mérito acumulado.
Grupo de tradução Padmakara
na introdução do livro “The Way of the Bodhisattva”
de Shantideva (Índia, séc. VII)
sobre o perdão
O perdão é uma parte essencial de uma atitude compassiva, mas é uma virtude facilmente mal compreendida. Para começar, perdoar não é o mesmo que esquecer. Afinal, se alguém esquecer um mal que foi cometido, não sobra nada para perdoar! Em vez disso, o que estou sugerindo é que encontremos uma maneira de lidar com os atos errados para termos paz mental e, ao mesmo tempo, evitar que caiamos nos impulsos destrutivos como o desejo de vingança.
[...] parte do que é requerido é uma aceitação de que o que está feito está feito. Tanto no nível individual quanto da sociedade como um todo, é importante reconhecer que o passado está além do nosso controle. O modo como reagimos aos atos errados passados, no entanto, não está.
Como já mencionei, é vital manter em mente a diferença entre o ator e o ato. As vezes isso pode ser difícil. Quando nós mesmos ou aqueles muito próximos de nós foram vítimas de crimes terríveis, pode ser difícil não sentir ódio pelos perpetradores desses crimes. Ainda assim, se pararmos para pensar sobre isso, compreendemos que diferenciar entre um ato terrível e seu perpetrador é na verdade algo que fazemos todo dia em relação a nossas próprias ações e nossas próprias transgressões.
Em momentos de raiva ou irritação, podemos ser rudes com pessoas amadas ou agressivos com os outros. Depois, podemos sentir remorso ou arrependimento, mas ao recordarmos de nossa explosão, não deixamos de diferenciar entre o que fizemos e o que somos. Nós naturalmente perdoamos a nós mesmos e talvez nos determinemos a não fazer a mesma coisa de novo.
Já que achamos tão fácil nos perdoar, certamente podemos estender a mesma cortesia aos outros! Obviamente, nem todos conseguem se perdoar, e isso pode ser um obstáculo. Para tais pessoas, pode ser importante praticar a compaixão e o perdão em relação a elas mesmas, como uma fundação para praticar a compaixão e o perdão para os outros.
“Beyond Religion”, loc. 842





